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SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL
Não se lê António Lobo Antunes. Viaja-se por dentro das suas ficções poéticas como quem se deixa transportar por um fio de memória. Vive-se empolgadamente, ou desoladamente, a acção dramática que a cada momento descola do exercício narrativo. Pode parecer mental, mas é visual, teatral, cinematográfico, musical. Por isto e por tudo – porque Lobo Antunes é um dos grandes autores universais e temos o privilégio de o ter connosco na mesma cidade onde vivemos, porque lê-lo é lermo-nos nas nossas vidas das últimas décadas, ou simplesmente porque é um prazer – faz-nos pleno sentido abrir a mãe de todas as temporadas, nesta casa das artes do palco, com um programa dedicado à literatura. Com Maria de Medeiros, que regressa a Lisboa e se desdobra em quatro personagens-sintoma do fim de um certo Portugal; com Solveig Nordlund, que ataca o universo decadente, solitário, desconcertante, de uma família que dificilmente poderia demonstrar que ainda o é; com José Neves, que aqui encontra o lugar ideal para re-exercitar o seu conceito de leituras postas em som, para ouvir e ver de olhos fechados. Depois, conversamos sobre o autor, a obra e os temas que dela emergem, lançamos livros, ouvimos dois ou três temas musicais. Quatro dias de festa António Lobo Antunes, porque a festa é um dos modos de ser da poesia. Um programa SLTM, em colaboração com Publicações Dom Quixote.
O talento de Maria de Medeiros e de Gonçalo Távora Correia, cavaleiro de equitação à portuguesa, o fluxo ininterrupto deste texto sem parágrafos nem maiúsculas nem vírgulas, restituem-nos o esplendor e a decadência de uma família do Ribatejo cuja mãe “vai morrer às seis horas”. Cada um dos membros – o cínico, a drogada, o homossexual e até a velha criada, Mercília, sem contar com os mortos e com os que estão a morrer – libertam a sua voz numa tragédia cujo ritual evoca quer a ópera (onde se morre a cantar) quer uma arena (onde se morre entre ‘vivas’). O título, inspirado numa velha canção de Natal, recorda que, sob o domínio outrora próspero da família Marques, os cavalos viviam em liberdade… Enquanto agora se ouve a litania: “Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde”. Adaptação, Encenação e Vídeo Maria de Medeiros Produção MC93 - Maison de la culture de la Seine-Saint-Denis
As cartas deste livro foram escritas por um homem de 28 anos na privacidade da sua relação com a mulher, isolado de tudo e todos durante dois anos de guerra colonial em Angola, sem pensar que algum dia viriam a ser lidas por mais alguém. Não vamos aqui descrever o que são essas cartas: cada pessoa irá lê-las de forma diferente, seguramente distinta da nossa. Mas qualquer que seja a abordagem, literária, biográfica, documento de guerra ou história de amor, sabemos que é extraordinária em todos esses aspectos.* Extraordinárias, sim, enquanto matéria viva que transporta pessoas dentro. Pessoas postas perante factos maiores – a separação, a guerra, a solidão extrema e a desumanidade das condições de vida – que reinventam na criação, na leitura e no exercício epistolográfico do amor a possibilidade de permanecerem vivas e se projectarem no futuro. Ideal para o exercício de criação de dramaturgia sonora que José Neves propõe. E para compreendermos como o acto de ler reconstitui e nos devolve, outra, a obra escrita. *do prefácio de Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes.
O Centro de Cultura e Estudos Portugueses da Universidade de Massachusetts estuda a literatura e a cultura dos duzentos milhões de falantes de português espalhados pelo mundo, sempre numa perspectiva de diversidade teórica e crítica. Sobre António Lobo Antunes, publica agora mais de vinte artigos capazes, cada um deles, de nos fazer descobrir ângulos insuspeitos e de nos transmitir o desejo de ler e reler o autor. Do lançamento em Portugal deste volume partimos para a discussão, aberta e assumidamente não académica, de uma obra única e de todos os temas, todas as reescritas da língua, todas as viagens poéticas que dela se desdobram. *Edição do Centro de Cultura e Estudos Portugueses da Universidade do Massachussets
17 SET Solveig Nordlund gosta de fazer filmes que nos surpreendam intelectual e formalmente. Com a adaptação cinematográfica de A Morte de Carlos Gardel, tem uma oportunidade única de empreender “mais uma prodigiosa aventura”. A partir de um emaranhado de discursos cruzados, discorridos por múltiplas primeiras pessoas, somos conduzidos por uma rede de memórias em cujo centro nervoso encontramos um jovem toxicodependente à beira da morte, o seu pai ingénuo, que não acredita que Gardel tenha morrido naquele acidente aéreo, uma tia obstinada… É a vida toda, com a morte dentro. Ou é um filme a partir de uma obra fundamental de Lobo Antunes, com antestreia no São Luiz. Após a apresentação do filme, conversa com Solveig Nordlund, Luís Galvão Teles e convidados a confirmar. Argumento e Realização Solveig Nordlund Com Rui Morisson, Carlos Malvarez, Teresa Gafeira, Celia Williams,Ruy de Carvalho, Joana de Verona, Elmano Sancho, Miguel Mestre, Ida Holten Worsøe, Carla Maciel, Diogo Dória, Teresa Faria, Cecília Henriques, Maria Arriaga, Albano Jerónimo e Maria João Pinho 20 SET, 4 OUT, 25 OUT, 15 NOV, 29 NOV, 13 DEZ
22 A 25 SET O São Luiz associa-se, com dois outros parceiros portugueses, ao projecto da Companhia Teatral Europeia: a utopia de criar um território de encontro para actores provenientes de diversos países europeus, de gerar com eles objectos teatrais, espectáculos que acrescentam algo de importante à nossa experiência de espectadores e, ao mesmo tempo, afrontam a ideia talvez paradoxal da Europa enquanto lugar comum de diversidade cultural e linguística. E cumpre, assim, um dos objectivos da sua programação internacional: a criação de dispositivos que permitam aos artistas portugueses partilharem projectos, amadurecerem a sua experiência e alargarem a sua rede de relações. Sábado à noite: sais… ficas em casa? Olhamos através das janelas de uma casa com jardim: quartos, pessoas… O que se passa, o que vemos sem dever, é um mistério que podemos reconstruir. Quem é aquele jovem casal que recentemente se mudou? O que é que ele está a fazer na casa de banho? De quem é aquela estranha presença, lá em cima? Saturday Night fala-nos dos ambientes que construímos para nós próprios e aos quais chamamos casa, dos sonhos que empreendemos, dos segredos que guardamos entre nós. Vês, mas não ouves. As pistas desdobram-se à tua frente. Qual é a tua versão da história? Espectáculo em que o pouco texto audível é dito em língua inglesa, com legendagem em português. Criação Vanishing Point Co-produção Vanishing Point (Glasgow), Teatro Nacional São João (Porto), Centro Cultural Vila Flor – Teatro Oficina (Guimarães), Tramway (Glasgow), Companhia Teatral Europeia e SLTM
Jorge Salavisa é uma pessoa incontornável, não apenas na história deste Teatro, mas também no desenho que a criação artística contemporânea assume hoje em Lisboa e em Portugal. O seu trajecto enquanto bailarino, professor, director artístico, a sua paixão pela pluralidade e pelo encontro das artes, conferem-lhe um lugar singular, histórico enquanto a história ainda decorre, o que não está ao alcance de todos. A estreia absoluta deste filme, em que Marco Martins documenta cinquenta anos de trabalho e investimento pessoal, é a oportunidade de revermos e nos congratularmos com um património importantíssimo que herdamos e nos faz sonhar.
30 SET A 2 OUT À volta do Dia Mundial da Música, partilhamos a ideia de que as orquestras andam pela cidade, ocupam as praças e outros lugares públicos e propõem neste dia sinalizar a falta que a música pode fazer-nos em todos os outros. Mas baralhamos-lhe os dados, multiplicamos o dia por três e partimos em busca de formas diferentes de ser orquestra em Lisboa, hoje. E mimamos a ideia de que o palco do São Luiz é outra praça, uma praça mais íntima mas ainda assim um lugar sob as estrelas.
Lisbon Underground Music Ensemble, projecto liderado pelo compositor Marco Barroso, reconstrói de forma original a herança da Big Band. Explora práticas e vocabulários que passam pelo jazz, pelo rock, pela música contemporânea e experimental, parte da composição escrita, mas cria espaço à improvisação. Dito de outro modo, ouvir o L.U.M.E. implica sempre uma festa inesperada, uma descoberta sensível que nos transporta de territórios conhecidos para outros mais inquietantes e felizes. Composição e Direcção Marco Barroso Marco Barroso piano, Manuel Luís Cochofel flauta, Paulo Gaspar clarinete, Jorge Reis saxofone soprano, João Pedro Silva saxofone alto, José Menezes saxofone tenor, Elmano Coelho saxofone barítono, Jorge Almeida, João Moreira, Pedro Monteiro trompete, Luís Cunha, Eduardo Lála, Pedro Canhoto trombone, Miguel Amado baixo eléctrico, contrabaixo, André Sousa Machado bateria
Quatro músicos de excepção, particularmente à vontade naquele modo do jazz que nasce da escuta e do momento, acompanhados de um crooner romântico mas talvez um pouco perverso, serão talvez um caso divertido de música séria, ou então, pelo contrário, um caso sério de música muito boa e muito divertida. Manuel João Vieira voz, Nuno Ferreira guitarra eléctrica, Rui Caetano piano, Marco Franco bateria, João Custódio contrabaixo
1 OUT O Prémio Jovens Músicos, uma iniciativa da Antena 2/RTP, completa 25 anos. Pedro Carneiro, Alexandre Delgado, Gerardo Ribeiro ou Paulo Gaio Lima são alguns dos músicos galardoados cuja relevância presente ajuda a explicar a importância do Prémio. No Dia Mundial da Música, apresentam-se em concerto os laureados da edição 2009/2010, das áreas de Canto e Guitarra.
Ao longo do dia, o espaço urbano da Baixa e do Chiado vai sendo ocupado por propostas diversas que têm em comum uma orquestra e um repertório para ouvir em comunhão com a cidade, ao ar livre.
A ORCHESTRUTOPICA acredita firmemente na diversidade estética, a sua filosofia de programação não reconhece fronteiras entre campos musicais e entre disciplinas artísticas; a sua vitalidade depende de uma visão aberta e abrangente no que respeita à criação musical e artística contemporâneas. Para este concerto no São Luiz, propõe-nos uma viagem pela cidade de hoje, lugar hiper-vigiado onde a imagem se desloca do corpo e se banaliza. Recorrendo da maneira mais simples, e com um expresso desejo de comunicação com públicos alargados, a compositores como Steve Reich, Heiner Goebbels, Bruno Mantovani, Louis Andriessen, Luís Tinoco e José Júlio Lopes. E ao vídeo, à imagem, enquanto instância de diálogo e interacção. Como nas cidades contemporâneas. Co-produção ORCHESTRUTOPICA, SLTM
2 OUT Das visitas a Lisboa da Orchestra di Piazza Vitorio e do caldo de cultura muito próprio que dá sentido ao Festival TODOS-Caminhada de Culturas, nasceu a ideia e o desejo de replicar aqui uma formação composta por lisboetas de todas as origens culturais, musicais, linguísticas… Juntar pessoas que vivem e pensam em instrumentos e tradições diferentes, que trazem consigo um património outro, é tornar música aquilo que poderia ser desencontro. É ver a cidade naquilo que ela é, uma realidade multiforme, mais rica portanto. Mario Tronco, maestro que intuiu a possibilidade de um projecto assim numa cidade cosmopolita como Roma, é o responsável por esta nova orquestra de todas as proveniências, que se estreará em Setembro no Largo do Intendente e fará no São Luiz a sua primeira apresentação em sala. Direcção artística e musical Maestro Mario Tronco Uma ideia do festival Todos - Caminhada de Cultura, um projecto com tutoria de Giacomo Scalisi e apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa (GLEM-Gabinete Encruzilhada de Mundos,) e APC (Academia de Produtores Culturais).
A anteceder o grande concerto, os músicos da Orquestra TODOS ocupam, um a um mas todos à uma, espaços inesperados do Teatro e oferecem a um punhado de espectadores de cada vez um concerto íntimo, uma experiência de contacto com um instrumento, com uma cultura, com um modo de ser músico. Uma proposta a implicar escolhas, eventuais reincidências, a impelir o espectador a criar o seu percurso entre as várias propostas. Um caminho de descoberta a ser feito entre gerações. Uma boa forma de aprender em conjunto.
Regularmente, com a regularidade que as ocasiões propiciarem, vamos em busca de músicas novas. Novas, não porque neguem a sua herança ou porque inventem tudo outra vez. Novas porque emergentes, na sua estratégia ou nos seus intérpretes. Novas porque ainda pouco conhecidas em Portugal. Novas porque encontram sínteses e modos de partilha que transportam consigo uma experiência inesperada. Para esta primeira declinação do conceito, dois programas. No primeiro, convidamos um jovem actor, Luís Araújo, a partilhar connosco algumas das suas urgências musicais. O resultado, encontramo-lo algures num território que força os limites da pop e da folk, em que cada protagonista assume o risco de se singularizar, de nos remeter para o seu universo narrativo, mas se move num desejo de partilha pelo menos equivalente. Logo depois, encontramos uma soma de protagonistas da nova música paulista. A solo, em participações cruzadas ou todos juntos, Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Thiago Pethit e Raf Vilar têm contribuído para a renovação da paisagem musical da grande cidade brasileira. Transportando cada um a sua personalidade, encontram-se talvez numa síntese musical que conhece bem a intimidade dos cabarés, que viaja entre a pop, a folk ou o jazz. Neste programa, intervirão cada um com a sua proposta, em quatro concertos justapostos cuja coerência repousa sobretudo da experiência do espectador.
Comissário Luís Araújo 7 OUT MURSEGO 8 OUT MAÏA VIDAL
14 OUT Co-produção Uguru e SLTM TULIPA RUIZ + THIAGO PETHIT + MARIANA AYDAR RAF VILAR 19 A 21 OUT Um homem de classe média nova-iorquina viaja para um país pobre e em plena guerra civil. Longe da sua vida confortável e subitamente doente no seu quarto de hotel, é possuído por um coro interior de vozes contraditórias: sonhos de conforto, imagens de violência física e económica, acusações de indiferença e argumentos impiedosos a favor da opressão. A questão central: qual é (se houver) a forma moralmente consistente de viver num mundo como este? “Um texto escrito por um actor/autor, maravilhosa dualidade que nos levanta outra, aquela que nos interessa mais, a relação da palavra com a acção, não só na forma como usaremos o espaço e o tempo em transformar a peça em teatro, o que é dito em drama, mas sobretudo com a questão fundamental que este texto nos põe: o que fazemos depois de dizer todas estas palavras, o que é que fazemos depois de as ouvir, e como poderemos nós, público, continuar a ignorar a cadeia interminável de acções em que estamos inseridos, em que cada gesto feito tem consequência na vida de toda a comunidade, no frágil equilíbrio de todo o universo?” Tradução Jacinto Lucas Pires Produção Teatro Oficina (Guimarães)
Em Ella, a velha mulher que dá o seu nome à peça ‘vive’ com Joseph num galinheiro. Está totalmente absorvida pela programação de televisão e não pronuncia uma palavra. Joseph prepara em silêncio o café que apenas beberá no fim da peça. Coloca uma peruca de penas de galinha e, vestido com o avental da mãe, começa de repente a debitar sem nunca mais parar para recuperar o fôlego, a regurgitar o solilóquio que Ella, a sua mãe, calou durante toda a sua vida, dos anos do nazismo aos do boom económico, de decepção em decepção. Joseph engole finalmente o café e cai enquanto a mãe se levanta e anda às voltas no galinheiro dando gritos de galinha assustada. Uma história verídica, ficcionada a partir de uma memória directa. Herbert Achternbusch fala do que sabe, da sua família, dos seus, de si mesmo. Mas Ella está muito para além da sua própria história. O pano de fundo histórico em que tem lugar não deixa de sinalizar uma outra barbárie, o nazismo. E quando a peça se afasta desse tempo histórico, é o pragmatismo economicista dos novos tempos que continua a condená-la a viver num gueto. Produção Teatro da Rainha
Acontecimento importante do calendário da cidade, o Festival Temps d’Images persiste há nove anos num caminho de criação, de revelação, de proposta de encontros entre criadores que propiciam o cruzamento de linguagens artísticas, sempre com a imagem como referente último. Neste ano, co-produzimos A Voz Humana e damos lugar ao trabalho de Carlos Pimenta, Raquel Castro e Dead Combo, para depois acolhermos Vasco Mendonça, Sandro Aguilar e a ORCHESTRUTOPICA numa revisitação singular de Beckett.
Do seu quarto em desordem, uma mulher telefona ao amante que acaba de a abandonar. O telefone surge, nesta situação, como único elemento capaz de estabelecer a comunicação entre a solidão da mulher e os lugares de ausência do ex-amante. “Dantes”, escreve Cocteau, “as pessoas viam-se. Podíamos perder a cabeça, esquecer as promessas feitas, arriscar o impossível, convencer aqueles que adorávamos através de um beijo ou de um abraço. Um olhar podia mudar tudo. Mas, com este aparelho, o que acabou, acabou”. Nesta obra, cheia de palavras e de silêncios, o telefone enquanto mediador da expressão dos sentimentos revela-se essencial. Mas o que é hoje a voz humana, mais de setenta anos passados sobre a escrita da peça? Texto Jean Cocteau Co-produção Ensemble - Sociedade de Actores, Festival Temps d’Images e SLTM
28 A 30 OUT Soundwalkers, um documentário de Raquel Castro, é apresentado em paralelo com a carreira do espectáculo A Voz Humana. Soundwalkers explora «alguns princípios fundamentais para construirmos uma sociedade acusticamente saudável, onde possamos viver dentro dos sons da vida. O respeito pela voz e pela palavra, a consciência sonora, o despertar da audição. [Aceita-se] o silêncio, impondo-o nas alturas certas. E, acima de tudo, [ouve-se].»
Ping, um dos mais fascinantes textos crepusculares de Samuel Beckett, é um objecto enigmático, que desafia mecanismos habituais de compreensão: setenta frases sem verbos e com poucas palavras; processos combinatórios de de(re)composição da linguagem; um narrador/consciência narrativa encarcerado num espaço de clausura nunca nomeado, nunca descrito, apenas medido: ‘one yard by two’. Som e espaço, mecanismo e consciência: são estes os referenciais de um mapa poético de navegação no território secreto e fortificado de Beckett. Jamais coordenadas. Por essa razão, a peça Ping - para recitante, 5 instrumentos e vídeo – não pretende ser uma chave de interpretação do texto Ping: a fixação de um significado seria a sabotagem do laborioso esforço de dissimulação de Beckett, e uma subversão da urgência e do risco do seu teatro. Em Ping, a revelação é necessariamente parcial – como a de uma sonda, que ao progredir no interior de um organismo, revela alterações, perigos, falhas. Será porventura esta a ideia do texto Ping que mais agressivamente contamina a peça Ping: o processo de depuração da existência humana como um mecanismo de revelação poética. Direcção e Música Vasco Mendonça Produção VH Produções, em co-produção com DuplaCena / Temps d’Images
Vinte anos depois de Nunca Nada de Ninguém, fresco acutilante da sociedade yuppie da última metade dos anos oitenta, fresco com gente embriagada pela ideia do sucesso, Luísa Costa Gomes e Ana Tamen voltam a encontrar-se para pintar uma paisagem mais sombria, mas não menos grotesca. Os dias, hoje, passam a fio entre os restos de sonhos que afinal são frias transacções imobiliárias. Ou nem isso. Diz Florinda, a agente imobiliária, num desabafo de momentâneo desencorajamento: “Mas é isto, Palmira, dias a fio. Caves, grutas, poços, garagens, anexos em varandas, corredores, arrumos, estúdios ao rés-do-chão nas traseiras dos cemitérios. Mortos de fome, desapossados, velhos sem nada, mulheres sozinhas com ranchadas de filhos. Não se consegue um negócio. Os grandes arrebanharam os condomínios, os apartamentos, e nós ficamos a esgaravatar o fundo da gamela.” A colega Palmira contrapõe, optimista: “Mas o poço até está por um preço muito bom.” E Florinda, filosófica: “Pois que remédio, temos de valorizar o poço, é o que nos resta!”. Estamos em Portugal, já se viu. São agentes imobiliários competindo pela comissão, intrigando, sonhando a sua Oportunidade Única para sair da corrida de ratazanas, e um deles é amigo de uma jibóia com quem aprende a rastejar e outra é uma que não dorme e que tem pena do seu próprio sofá. E há um, claro, que vende ouro e seguros de saúde. E muitos outros, na corrida, sempre, sempre, dias a fio. Encenação Ana Tamen Co-produção Grupo Cassefaz e SLTM
Cantada e dita, gritada e sussurada, desenhada e musicada, lida e improvisada, a palavra é o pretexto para reunir alguns dos melhores palavristas durante 60 minutos de espectáculo. Músicos e dizedores são acompanhados por desenho em tempo real. E da poesia à prosa, das canções às histórias, a actualidade acaba sempre por subir ao palco atrelada às palavras. Cada Clube da Palavra ao vivo é o reflexo do que o Canal Q vai emitindo semanalmente no ovni televisivo Clube da Palavra. Produção Produções Fictícias
O São Luiz associa-se à Mostra Espanha 2011 acolhendo José Luis Greco, um dos mais notáveis compositores da actual música erudita espanhola. Organização Ministério da Cultura de Espanha
Cidade diversa, Lisboa pode também ser uma cidade de ilhas que não se encontram. Lisboa Mistura funciona como uma espécie de agitador que baralha os percursos e faz afluir ao centro aquilo que todos jurariam que é da periferia. E assim mostra uma via para o cumprimento da missão de um Teatro Municipal. Lisboa Mistura é um espaço de encontro, no centro da cidade, entre pessoas e artes e artistas de várias proveniências geoculturais. Lisboa Mistura músicas, dança, vídeo, poesia: artistas contadores de estórias em formatos variados. Lisboa Mistura pessoas e dá-lhes a conhecer outros convidados, pessoas de bairros tão próximos dos nossos e que muitas vezes não ‘vemos’ ou viajantes de outros países que se encontram em Lisboa. Mistura também jovens, amigos, familiares e apoiantes de Associações dos bairros a que estes pertencem: é a O.P.A. em Lisboa e a alegria de nos reconhecermos em cada rosto que olha a partilha com urgência ou melancolia. Lisboa Mistura é o primeiro encontro intercultural organizado pelos lisboetas de todos os lugares. Esta 6ª edição é feita para ouvir os sons do Mundo, para dançar livremente os sons da Terra, para nos envolvermos em causas de todos, para nos celebrarmos e para pensar no futuro enquanto comunidade. É também um espaço de debate. E convidamos todos, não a irem aos bairros, mas a virem ao centro de Lisboa assistir a uma grande peça, com dramaturgias variadas, em que nós e os outros somos os protagonistas. Mistura o Mundo em Lisboa. Produção Associação Sons da Lusofonia
A receita de bilheteira reverte a favor da Associação Abraço.
Desde os doze anos, Ricardo Ribeiro aprendeu a conhecer e a exercer um repertório que nos transporta a um Fado enraizado, com história. Dessa consciência das origens e de um percurso marcado pelas colaborações ¬– com outros fadistas como Celeste Rodrigues ou Argentina Santos, um encenador como Ricardo Pais, ou ainda um músico e compositor de outros sons, Rabi Abou Khalil -, nasceu uma das vozes mais maduras do Fado contemporâneo. Pela primeira vez em nome próprio na Sala Principal do São Luiz, Ricardo Ribeiro exercita e dá-nos a descobrir outro lado da cidade, popular e sentido. E todo ele fado.
Ao fim da segunda noite de concerto, Ricardo Ribeiro é o anfitrião perfeito para uma madrugada de tertúlia fadista, desgarrada, brincadeiras sérias à volta da expressão musical mais idiossincrática da cidade.
4 A 11 DEZ O Festival InShadow afirma-se como uma referência internacional no território da criação contemporânea interdisciplinar - vídeo, performance e tecnologias. InShadow amplia a cada ano o seu campo de exploração, com uma programação centrada na relação interactiva entre corpo e tecnologia e no cruzamento de géneros e linguagens com destaque para a vídeo/dança. O festival apresenta propostas estéticas e técnicas da representação do corpo/personagem no ecrã, no palco e noutros espaços de actuação, através de sessões competitivas internacionais de vídeo-dança, sessões temáticas país e companhia convidados, documentários, espectáculos, performances, instalações, exposições, workshops e masterclasses. Na sua terceira edição, InShadow reforça a participação do público juvenil e universitário, abre uma secção exclusiva dedicada à apresentação de solos e outra à competição de documentários, mantendo o compromisso centrado na investigação e na inovação. Programação Ana Rita Barata e Pedro Sena Nunes Co-produção Vo’Arte e SLTM
16 A 22 DEZ Pode dizer-se que A Vida de Maria é um retábulo cénico sobre a mansidão, a quietude, a imagem sem mácula, a aura de uma certa santidade a que todos nós podemos aceder se o cinismo, a sobranceria e outros sinais do já famoso mal-estar contemporâneo nos abandonar momentaneamente. Um recital que percorre os principais factos daquela a quem chamamos Maria, pela escrita de R.M. Rilke, à maneira de itinerário conceptual, porque hoje quando dizemos Magnificat não é certo que na cabeça dos nossos pares ressoe apenas o cumprimento feito por Isabel a Maria. Ou Pietá ou Natividade, e a lista prolonga-se. Heinrich Voegeler lançou o repto a Rilke, que a partir das imagens do Manual de Pintura do monge pintor Dionísio do Monte Athos ou do Paterikon do Mosteiro da Caverna de Kiev ou ainda do Flos Sanctorum de Pedro Ribadaneira escreveu este ciclo de 13 poemas. Uns anos mais tarde Hindemith musicou-os. Desta autoria tripartida nascerá este acto de higiene espiritual numa altura em que os fantasmas de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens assomam aos altares da vida pública e onde o simples facto de se dizer Deus abertamente e com maiúscula nos pode pôr no limbo do saneamento laico. Este espectáculo é uma oração. Este espectáculo é um acto militante. Este espectáculo devia ser uma leve brisa. Tradução Maria Teresa Dias Furtado Co-produção Cine-Teatro São Pedro (Alcanena) e SLTM
Que lugar outro senão o Teatro, para interrogar a conformidade do pensamento? Para confrontar loucura e normalidade? Para lembrar à cidade as curvas de que é feita? A partir do palco, podemos rever-nos, reinventarmo-nos, ensaiar outros futuros, exercer a crítica de nós mesmos. O Grupo de Teatro Terapêutico vive num território que interpela a pertinência do gesto artístico enquanto mecanismo de humanidade. Não admira que escolha, para partilhar connosco, uma farsa… Em Metastasipolis é o tempo do poder absoluto e dos equívocos. O passado estabelece alianças com o presente. Emergem das sombras, das dúvidas, novos predadores. […] Guerras e apocalipses passam-se longe de casa e presenciam-se em cubículos, em poltronas e salões. Num cadinho de contradições, de sedas e fedores, de jogos e guerras que acontecem e motivam à distração, à diversão, a par de concursos duvidosos que alimentam o mundo de dezassete personagens em evolução destrutiva, a bonecada de todas as épocas faz o jogo do faz de conta de uma alienação persistente. Metastasipolis é a comédia, a farsa, que não pretende ser formativa ou informativa, nem mesmo exemplar. É apenas um exercício coloquial para o divertimento colectivo dos bons e péssimos costumes. Texto, Encenação e Direcção de Actores João Silva Produção Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos e Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa
27 A 29 DEZ Nas conferências, confere-se. Nas desconferências, por maioria de razão, desconfere-se. É precisamente isso que nos propomos fazer. Neste crepúsculo de todas as crises (as de 2011, porque as de 2012 estarão já aí a romper), interessa-nos desmontar, produzir ironia a sério, enquanto etapa primeira de um possível processo de conhecimento. Interessa-nos fazer explodir, em sentidos inesperados, os lugares comuns da política, do amor, do dinheiro. Da cidadania, do desejo, dos estatutos e dos papéis sociais. Do sentido de comunidade, do egoísmo, das artes e dos seus travestimentos. De tudo o que nos vier à cabeça e nos sirva para achar que escavacamos o passado da crise e que algures há um futuro. A conferir, talvez, um destes dias. Comissário Nuno Artur Silva
28 DEZ 29 DEZ |