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Destaques

Dia Mundial do Teatro 2020

 

Mensagem de Aida Tavares, lida na manhã de 27 de março de 2020, Dia Mundial do Teatro, no palco vazio do Teatro São Luiz

 

Este espaço está vazio

Bom dia.

Chamo-me Aida Tavares e sou Diretora Artística do Teatro São Luiz, e hoje, Dia Mundial do Teatro, este espaço está vazio.

Não foi Peter Brook que disse que qualquer um de nós pode chegar a um espaço vazio e dele fazer um espaço de representação? Mas tal exige, e Brook sabia-o, a presença do coletivo. É justamente esse coletivo que converte em representação o desejo de teatro.

O Teatro São Luiz, como muitos teatros nossos amigos e parceiros em Lisboa, no país e lá fora, está de portas fechadas. É uma cena vazia, sem teatro. Os artistas não podem receber os aplausos do público, as equipas não podem tornar a magia real, e já ninguém ouve os fantasmas que, dizem, ficaram pelos corredores. Queria dizer-vos, porém, que o encerramento das nossas portas significa também a esperança de podermos, juntos, enfrentar o desafio de uma geração.

Na mensagem oficial que todos os anos o Instituto Internacional do Teatro solicita a um artista para celebrar o Dia Mundial do Teatro, o encenador paquistanês Sahid Nadeem lembra que, por vezes, dizemos a brincar que “os tempos maus são bons para o teatro”. Diz que nunca “há escassez de desafios para enfrentar, de contradições para expor, nem de estado de coisas para subverter”. Mas o que vivemos agora, todos, é um desafio maior que nem o teatro consegue imaginar, mesmo que tenhamos aprendido em todas as ficções sobre pandemias que estas terão um fim.

Não há movimentos de cena, deixas do diretor de cena, ou marcações a cumprir que possam fazer o papel que agora nos cabe, no teatro real que por estes dias é o da nossa casa.

Mas nesta casa, hoje vazia, continuamos a trabalhar para um futuro próximo, onde voltaremos a olhar para este palco cheio. Por ora, olhemos para este tempo, não como uma fatalidade, mas como uma oportunidade para refletir e para agir, assim que pudermos.

Tínhamos imaginado no dia de hoje o nosso teatro cheio, com Lar Doce Lar, da Mónica Calle, Bonecas, de Ana Luena e José Miguel Soares, Os Sapatos do Sr. Luiz, da Madalena Marques, e A Tragédia de Júlio César, do Luiz Araújo / Ao Cabo Teatro, a ocuparem todos os espaços, a imaginarem todas as histórias, a continuarem uma história de 125 anos, que é a deste teatro. Ontem teríamos estreado a encenação do Luís Araújo do texto de Shakespeare, esse que, diz a lenda, escreveu Rei Lear durante uma quarentena. E hoje as suas as palavras fazem ainda mais sentido quando no Dia Mundial do Teatro este espaço fica vazio. Escreveu Shakespeare: “Os homens tornam-se, algumas vezes, donos dos seus destinos. A culpa, caro Brutus, não está na nossa estrela, mas em nós se formos inferiores.” Não acreditemos em destinos já escritos e dos quais não façamos parte.

Agora cuidemos uns dos outros para que, em breve, possamos estar juntos a aplaudir os artistas neste e em todos os palcos.

Viva o Teatro!

 

Fotografia de Estelle Valente

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