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Destaques

Confiemos uns nos outros. Aprendamos.

Para a Fernanda Lapa, o Bruno Candé e o Pedro Lima

O que ainda vamos aprender deste ano? Não sabemos e as únicas respostas que podemos dar traduzem-se em palavras como confiança e segurança. Juntos, nós e vocês, todos, artistas, técnicos, público, numa casa que conhecemos de cor mas que, agora, teremos de aprender a vivê-la de outra forma, e num outro tempo.

Há uns anos, numa entrevista para ao jornal PÚBLICO, a Fernanda Lapa lembrava-nos que “é a consciência das coisas que faz as revoluções”. E quando é do seu exemplo que nos lembramos, ela que encenou o seu último espetáculo, uma ode à liberdade, no nosso palco, queremos honrar todos aqueles que, ao longo dos últimos meses, connosco, nos mostraram que o nosso trabalho faz sentido, é importante e pode ajudar a mudar a consciência das coisas.

Assim, repetimos as palavras confiança e segurança porque queremos cuidar de todos como os nossos encenadores e coreógrafos cuidam dos seus atores e bailarinos, como os nossos músicos cuidam dos seus instrumentos e uns dos outros, as nossas equipas técnicas, de produção e de acolhimento cuidam dos públicos adaptando o teatro a todas as necessidades e exigências, como se esta casa pudesse ser a casa de cada um, um lugar seguro e um lugar no qual se pode confiar.

Por isso, trouxemos de volta aqueles a quem não quisemos largar da mão, os artistas que já vos tínhamos prometido e que agora, acreditamos, farão não apenas os espetáculos que haviam pensado, mas outros, ainda mais próximos e completos e, por isso, fazendo ainda mais sentido na construção da identidade de uma casa que, como temos vindo a dizer ao longo dos últimos anos, é deles e é sua: o nosso lugar de encontro no centro de uma cidade que se volta a encher dos seus hábitos.

São mais de 20 os projetos que trazemos da temporada anterior, criando espaço e novos diálogos com o que já havíamos pensado apresentar-vos e que, agora, validam a ideia do teatro como possibilidade de revolução que serve e abraça todos os tempos.

São projetos de teatro, de dança, de música, alguns imaginados por quem, pela segurança de todos, vê os seus espaços de apresentação limitados e, por isso, também a eles damos a mão e dizemos: Venham! Ensinem-nos a fazer diferente. Tragam o vosso público e conheçam o nosso. Deixem que chamemos nossos aos vossos artistas. É assim que engolimos a vida que nos quer engolir, driblando a realidade e criando uma nova.

Vão ser dias feitos para os mais novos e para todos, por nomes que aqui chegam pela primeira vez, alguns desses que demoraram mais tempo do que deveriam a chamar seu este teatro, e outros que são apostas que queremos seguir, ao lado daqueles que acompanhamos, alguns que vimos crescer, outros que nos ensinaram a dizer, ver, aprender teatro. E todos, aqui, porque acreditamos partilharem connosco esta aventura de imaginar que sabemos o que é certo e o que vai funcionar.

Atravessamos o ano com Tchékhov, não só na monumental operação A Vida Vai Engolir-vos, assinada por Tónan Quito e que junta quatro peças e que, num gesto inédito – também ele revelador do muito que aprendemos e do tanto que falta fazer, neste trabalhar em conjunto -, une, numa só, as aberturas de temporada de outros tantos teatros, o nosso e o Dona Maria II, em Lisboa, e, no Porto, o Teatro Municipal e o Nacional São João. Este é também um gesto que se estende ao público de quatro teatros e duas cidades, num imenso desejo de tornar material esta ideia por todos defendida de comunidade. Um presente nosso, para todos.

Sandra Faleiro e Rita Calçada Bastos haverão de chegar mais tarde para procurarem nas dobras dos textos, nas suspensões dos diálogos, nas esperas das personagens, o essencial de uma obra que não deixa de nos interpelar e, assim e por isso, justifica tantos regressos. Tchékhov, um autor português, afinal.

O ano traz-nos, ainda, de diferentes modos e formatos, Mónica Calle, Cláudia Dias, Patrícia Portela e Sara Carinhas, nomes com quem faremos projetos especiais, simbólicos, também eles, por reafirmarem o papel que ocupam na cena artística nacional e que, ao longo dos anos, ajudaram a moldar através de um comprometimento, um sentido de pesquisa, uma ética dedicada ao espectador, um intenso prazer na descoberta dos limites, e das razões de se ser intérprete e criadora. Exemplos da longa lista de nomes que são rostos de um trabalho aturado, em rede, muitas vezes atravessando gerações, invisível, levado pela mão por muitos, confundindo-se com a história das casas que as acolhem e com a vida dos que neles se envolvem. E, por isso, não esquecemos Bruno Candé e o tanto que a história da Casa Conveniente é também história sua, e nossa, porque da cidade e da comunidade de que somos todos parte. Nem Pedro Lima que, na sua humildade, era um ator por inteiro.

Lembraremos Amália, nos 100 anos que 2020 deveria celebrar, nas vésperas dos dez em que o fado foi elevado a património mundial da humanidade. Amália de Lisboa, de todos nós, deste teatro também, porque foi aqui que recebeu a medalha de ouro da cidade, há 30 anos, tocada pelo seu músico-cúmplice, Joel Pina, 100 anos atrás de uma guitarra, e com crianças e adolescentes das escolas da cidade, porque nunca nos cansamos de acreditar que todos nós temos Amália na voz. E evocaremos Bernardo Sassetti, cantado por Salvador Sobral, um e outro cuja história pessoal e profissional se confunde com a história deste teatro. E mais. A música de Capicua, da Orquestra Metropolitana de Lisboa, de Miguel Azguime nos seus 60 anos de percurso, de Rita Maria e Filipe Raposo. O teatro de Marco Martins, Ricardo Neves-Neves e o regresso de Nuno Carinhas a esta casa que nunca deixou de ser sua, mais o encontro, o nosso primeiro, com um gigante do teatro à flor da pele, o italiano Pippo Delbono, que criará sobre Lisboa a sua próxima encenação, a nosso convite.  E a dança de Victor Hugo Pontes, de Miguel Pereira, de Carlota Lagido, de São Castro e António M Cabrita, de Olga Roriz e de Sónia Baptista, lado a lado com os festivais, desde logo o Alkantara, ponte tão necessária para alargarmos e partilharmos o que somos e devemos a todos aqueles com quem nos cruzamos, ou se cruzaram antes de nós, e o FIMFA, de quem somos parceiros-casa e com quem tanto aprendemos a descobrir novos nomes e a fazer novos artistas.

Aprendemos nos últimos meses que não podemos prever tudo. A vida poderá engolir-nos, mas até lá vivemos na convicção de que a grande metáfora do teatro é essa: imaginar o que possa acontecer e improvisar tornando real a ficção possível. Faremos desta temporada, a temporada do reencontro, do reinício, sem nunca esquecer o que importa mudar. Mas sem a pretensão de saber, já, o que aprendemos com tudo. Chegaremos lá. Se estivermos juntos. Com segurança e confiança.

 

Aida Tavares
Diretora artística do Teatro São Luiz