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Destaques

conferência | PÚBLICOS: REPRESENTATIVIDADE E ACESSIBILIDADE NAS ARTES PERFORMATIVAS

Conferência realizada a 17 junho 2023, Sala Bernardo Sassetti, no Teatro São Luiz

 

Os caminhos para uma mais completa inclusão

Uma conversa com Zia Soares, Jwana Godinho, Henrique Amoedo e Luís Sousa Ferreira em torno das margens e do centro, das minorias e das maiorias num local que devia ser inteiramente livre: a sala de espetáculos.

Quando Henrique Amoedo, hoje diretor artístico do Teatro Viriato, em Viseu, criou a companhia Dançando com a Diferença, há mais de 20 anos, na Madeira, o público era formado por familiares e amigos dos bailarinos com deficiência que atuavam em palco. “Adoravam todos os trabalhos. Eram pessoas muito próximas”, conta o fundador. Em 2005, a estética altera-se num primeiro trabalho com a coreógrafa Clara Andermatt (Levanta os Braços Como Antenas Para o Céu). “No início era o que eu chamava de ‘balezão’, ou seja, dança que o público facilmente identificava, com trios, duetos, diagonais, círculos, os corpos estavam na maior parte do tempo cobertos com muito tecido para dar movimento… E o público achava lindo, dizia: ‘Que trabalho benevolente’. Com a Clara, as diferenças dos corpos são expostas em cena. O público não estava acostumado a ser confrontado com aqueles corpos diferentes e as pessoas perguntavam: ‘Enlouqueceram?’ São fases muito importantes para a visibilidade dos corpos não normativos”, explica Henrique Amoedo.

São momentos de rutura que confrontam as pessoas com os seus preconceitos, as suas construções à luz da norma e também dão o palco a grupos que sempre foram confinados à invisibilidade. Do invisível, mas também do lugar de poder de quem “dá visibilidade” se falou nesta conferência promovida pelo Teatro São Luiz/EGEAC no âmbito do encontro da Rede Próspero, da qual é parceiro. Uma rede europeia com dez parceiros (nove teatros e um meio de comunicação, a Arte), que promove a criação e a coprodução artística, disponibiliza os espetáculos em plataformas digitais e trabalha no desenvolvimento dos públicos.

“Há 20 anos havia muitos que iam ver a Dançando com a Diferença por curiosidade. Encontramos reflexo disso na comunicação social, aliás, que focava a deficiência ou a superação. Hoje não. O público vai para ver o trabalho artístico, a obra do coreógrafo, a ligação da obra do coreógrafo com a companhia… São outras questões”, continua o diretor artístico.

Ter grupos populacionais não normativos ou minorias étnicas ou sexuais em palco não só torna visível quem não o é, contribui para quebrar preconceitos e… ajudará a criar novos públicos? “Claro que sim. Se uma menina negra vier assistir a um espetáculo feito por mim, há uma aproximação que se dá pela via da identificação. Mas não é a única coisa a fazer para que haja olhares diferentes; é uma parte do caminho”, nota Zia Soares, encenadora e atriz, cofundadora do projeto SO WING e diretora artística do Teatro Griot.

Outra parte da questão é justamente essa da visibilidade. “Eu não estou à espera que alguém me dê visibilidade. Se não me veem, e falo enquanto artista, problema de quem não me vê”, continua a criadora. O facto é que existe aqui uma relação de poder – quem define o que é visto? “As ‘estruturas de poder’, aquelas que definem os financiamentos, as programações e, por consequência, definem os modos de criação e de produção das obras artísticas”, responde Zia Soares.

 

A questão “fake”

“A única forma de errarmos menos será sempre a de partilhar”, resume numa frase Luís Sousa Ferreira que, atualmente, exerce as funções de adjunto da direção artística do Teatro Nacional D. Maria II, com especial foco no projeto Odisseia Nacional (com 93 municípios). “No desenho da programação julgo que será obrigatório percebermos os vários lugares de fala. Não só os artistas consagrados e os artistas emergentes, ter um olhar sobre o passado e um olhar sobre o futuro, mas também ter os agentes de uma forma diversa para trabalhar um ou vários temas. Sim, tem de estar em cima da mesa”, sublinha o também fundador e diretor artístico do 23 Milhas, Bons Sons e Caminhos do Médio Tejo.

Luís Sousa Ferreira está habituado a trabalhar com outro tipo de exclusões, a dos territórios fora dos grandes centros, onde antes os artistas de Lisboa iam em digressão mostrar os espetáculos que faziam na capital. Era importante, mas longe de chegar. O caminho agora é o de trabalhar em conjunto, margens e centro.

É também o adjunto da direção artística do D. Maria II quem responde à questão incontornável: os «fakes» na interpretação. “Hoje em dia não faz sentido para mim levar a palco um artista a fingir que é algo quando temos artistas que vão trazer uma realidade que pode ajudar muito ao projeto artístico em si. Não só pela questão da representatividade e da oportunidade de haver lugares de trabalho para todos, mas a ideia de um «fake» traz uma perversidade ao projeto – entramos nos mesmos clichés, nos mesmos olhares sobre as questões. Felizmente hoje já não temos o blackface; há uns séculos as mulheres também não pisavam os palcos por questões sociais e religiosas e eram os homens que tinham de fazer esse lugar. Um ator pode fazer tudo? Pode, com certeza. Mas eu não vejo um ator de 70 anos a interpretar o papel de uma criança… Um homem vestido de mulher não é a mesma coisa do que ter uma pessoa transexual em palco”, resume.

“Quando passamos à fase seguinte e temos uma pessoa com deficiência a representar um papel que não seja o de uma pessoa com deficiência?”, ouvimos de Jwana Godinho. Jwana é cofundadora da empresa Access Lab. Tem uma longa carreira no mundo da música e do entretenimento e, com a Access Lab, ajuda os promotores de espetáculos a torná-los acessíveis às pessoas com deficiência.

“Estamos dependentes da boa vontade ou sentido cívico de um promotor de espetáculos, mas também das pressões do público, das marcas que pagam o evento ou do Estado que paga o evento. E estamos dependentes de dinheiro. Ainda estamos numa fase em que o custo da acessibilidade é mais alto do que o retorno que traz o público com deficiência, mas é um caminho. Como também foi uma questão de boa vontade e de um público que fez barulho levar as questões ambientais para os festivais. Força-se, faz-se legislação, formam-se públicos, fala-se do tema e vamos caminhando”, acredita Jwana Godinho.

Vamos caminhando. Às vezes devagar devagarinho. Outras vezes com aqueles empurrões que ficam para a história das artes performativas.

Alexandra Correia (jornalista)

 

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