Crepúsculo d’Eva, um espetáculo em forma de assim constrói-se como um encadeamento de números e rábulas enraizados num universo popular, onde a memória, as figuras e os lugares de um imaginário lisboeta ganham corpo em cena. A partir desse território, convocam-se, com humor e irreverência, referências à cultura erudita, num jogo de contrastes entre o quotidiano e o teatral, o íntimo e o performativo. No centro está Fernando Santos, amplamente reconhecido através da sua icónica Deborah Kristall, que aqui se revela para além da personagem. O espetáculo cruza teatro, memória e performance, partindo de histórias vividas na primeira pessoa, desde a infância na Mouraria e conduzindo o público por um universo povoado de figuras marcantes.
Entre o cómico e o íntimo, a criação desenrola-se como uma sucessão de cenas onde o real e o performativo se contaminam, integrando momentos musicais, incluindo fado interpretado ao vivo e evocando referências como Shakespeare, Natália Correia, Gil Vicente, Mário Cesariny… Entre transformação e revelação, explora-se um território onde identidade, representação e memória se tornam indissociáveis.
O espetáculo propõe uma reflexão sobre o transformismo enquanto prática artística e território simbólico. Associado historicamente à transgressão e à ambiguidade, surge aqui como dispositivo criativo que questiona categorias fixas de identidade. Através de conceitos como androginia, artificialidade, provocação e subversão, constrói-se uma linguagem cénica que cruza o biográfico e a ficção, afirmando a identidade como construção em permanente mutação. Uma construção de uma constelação de figuras cujas linhas de união constroem um desenho de uma Lisboa muitas vezes desconhecida.
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