Em tempos turbulentos, a arte expressa-se frequentemente através de cores suaves. E poucas paletas são tão marcantes como a utilizada pelos compositores do período da Primeira Guerra Mundial. Cores em cinza junta três obras que exploram o gradiente entre a luminosidade do período pré-guerra e a frágil introspeção que se seguiu, apresentadas, neste concerto, em transcrições para flauta, viola e harpa.
A Sonatina de Maurice Ravel, inicialmente uma miniatura virtuosística para piano, adquire uma nova transparência com a transcrição de Carlos Salzedo. Escrita antes da Guerra, mas já marcada por uma depurada economia sonora, a sua elegância discreta revela-se ainda mais leve quando filtrada pelas sonoridades diáfanas deste trio instrumental.
A Sonata para flauta, viola e harpa de Claude Debussy, concluída em 1915 quando as bombas já rasgavam os céus europeus, habita um mundo em que coexistem elegância e melancolia. A transitoriedade das suas cores, os seus ritmos evasivos e os momentos de refinamento lírico revelam, ao mesmo tempo, a nostalgia por uma França idílica e a adesão à sonoridade moderna.
Composto no decurso da participação de Ravel na frente de batalha, Le Tombeau de Couperin transforma a perda pessoal num deliberado e luminoso memorial. A transcrição de Jocelyn Morlock conserva a graça barroca da obra, permitindo, ao mesmo tempo, que a sua resiliência – e não o luto – ascenda à superfície.
Rui Matos, Maria Inês Monteiro e Ana Aroso darão voz a estas “nuances de cinza” num concerto em que a contenção se transforma em esplendor.
Programa
M. Ravel: Sonatina (1905) (*)
C. Debussy: Sonata para flauta, viola e harpa (1915)
M. Ravel: Le Tombeau de Couperin (1917) (**)
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(*) transcrição para flauta, viola e harpa por Carlos Salzedo
(**) transcrição para flauta, viola e harpa por Jocelyn Morlock