Os pequenos investidores lamuriam tudo o que perderam e as figuras sem nome e sem cara do setor financeiro conspiram contra eles, cidadãos comuns, caídos, por culpa própria nas malhas dos poderosos. O dinheiro tem de desaparecer, fugir ou ir de férias para uma ilha paradisíaca de modo a repousar tranquilamente porque a vida é uma correria, uma canseira. Esta corrida, cuja meta ninguém vislumbra, não é contra o tempo, nem a favor de ninguém. Esta corrida que é a vida no limite, que decorre no campo minado das especulações e da aldrabice, é um furacão para dentro do qual tudo é sugado e onde já nada se pode discernir.
Elfriede Jelinek construiu um texto que nos turva a visão, que recusa a transparência, desmonta as ilusões do discurso banal e expõe aquilo que tendemos a não querer ver: a violência estrutural que se oculta na linguagem quotidiana. A autora, Prémio Nobel da Literatura em 2004, mergulha no vocabulário do mercado e da alta finança — compra, valor, falência, concorrência, risco, garantia, lucro — para revelar como esses termos se tornaram princípios de organização da vida contemporânea. Não é um texto dramático no sentido tradicional; não há personagens estáveis, conflitos clássicos ou narrativa linear. O que os auéééu se propõem a apresentar é um espetáculo sobretudo discursivo que se movimenta como um fluxo: irónico, feroz, por vezes catastrófico, por vezes hilariante, sempre consciente de que pensar numa sociedade de mercado implica desconfiar da própria estrutura do pensamento.