Em setembro de 2025, assinalou-se uma década desde que Estelle Valente iniciou o seu trabalho no Teatro São Luiz. O que começou de forma intuitiva evoluiu para uma relação contínua e profunda com o espaço, os artistas e as histórias aqui construídas.
A exposição apresenta um percurso visual por dez anos de presença fotográfica no Teatro: imagens de cena, bastidores, retratos e instantes de silêncio captados no vazio dos corredores e dos palcos.
Mais do que uma retrospetiva, trata-se de uma celebração da cumplicidade entre a fotografia e o Teatro — dois modos de olhar, de fixar o tempo e de criar memória.
É também um testemunho sensível da vida interior do São Luiz e do seu papel como lugar de criação e encontro.
Durante dez anos, regressei ao Teatro São Luiz com a mesma intenção: observar.
O que aqui se apresenta não é um arquivo exaustivo, nem um inventário da programação.
É uma edição.
Uma seleção de imagens que resistiram ao tempo e permaneceram vivas no meu olhar.
A exposição organiza-se em três partes.
A primeira está na rua.
No muro em frente ao Teatro, os retratos a preto e branco – realizados sempre no mesmo Janelão – formam um corpo coletivo. São artistas, técnicos, criadores e trabalhadores que fizeram e fazem o São Luiz. Ao serem expostos no exterior, estes rostos tornam-se parte da cidade. A repetição do lugar e da luz transformou o retrato num gesto contínuo, quase ritual. A mesma janela, a mesma luz, diferentes presenças. Um arquivo humano aberto a todos.
A segunda parte ocupa os espaços de circulação pública do Teatro.
Escadas, varandas, foyers e corredores acolhem fotografias de cena, concertos, imagens realizadas para a revista São Luiz e fragmentos do próprio edifício. Aqui, a exposição acompanha o movimento do público. Teatro, dança e música cruzam-se sem hierarquia. O que importa não é o evento, mas a intensidade do instante – a luz do palco, o corpo em ação, a vibração suspensa no ar.
A terceira parte é quase secreta.
Acessível apenas através de visitas guiadas, revela zonas habitualmente invisíveis: bastidores, subpalco, cabine de projeção, corredores técnicos. Não se trata de explicar o teatro, mas de permitir que ele seja descoberto por dentro. A espera antes da entrada em cena, a maquinaria silenciosa, o espaço vazio depois do espetáculo. O teatro enquanto construção, respiração e trabalho coletivo.
Estas três camadas – exterior, circulação pública e zonas técnicas – compõem um retrato fragmentado e íntimo. Não procuram representar tudo o que aconteceu, mas condensar uma experiência: a de acompanhar um teatro ao longo do tempo.
Entre luz natural e luz cénica, presença e estrutura, visível e invisível, este conjunto de fotografias constrói um olhar inevitavelmente subjetivo sobre o São Luiz.
A Luz que Ficou é aquilo que permanece depois de cada aplauso.
A memória que se deposita nos rostos, nos espaços e nos gestos.
É a tentativa de fixar, em imagem, o que é por natureza efémero.
E talvez seja também isso: a luz que ficou em mim.
Estelle Valente
22 maio – adiado para 5 junho
Na Mesma luz
Sessão de Retratos com Estelle Valente
No âmbito da exposição A luz que ficou, da fotógrafa Estelle Valente, o público é convidado a participar numa experiência fotográfica única e gratuita no dia 22 de maio, data em que se celebra o aniversário do São Luiz Teatro Municipal.
25 junho
Oficina de Fotografia de Cena
Por Estelle Valente
O São Luiz desafia o público a conhecer um pouco do universo da fotografia de cena com a fotógrafa Estelle Valente.
BIOGRAFIA
Estelle Valente nasceu em França, país com o qual mantém uma ligação profunda, e escolheu Lisboa para viver há 15 anos — uma cidade de cujo sol não prescinde.
Em 2012 iniciou a sua colaboração com a fadista Gisela João, que acompanha até hoje. Entre 2015 e 2024 foi fotógrafa oficial do Teatro Municipal São Luiz, onde fotografou ensaios, espetáculos e campanhas de comunicação.
A fotografia de cena é o eixo central do seu trabalho. Continua a colaborar com companhias de teatro e, na presente temporada, é a fotógrafa oficial do Teatro Variedades. Desenvolve igualmente trabalho nas áreas do retrato e da fotografia de concertos.
O ano de 2018 marcou um momento decisivo no seu percurso: realizou em Setúbal a sua primeira exposição, Carla no Papel, onde a atriz Carla Maciel encarna grandes divas do cinema do século XX, como Marilyn Monroe, Greta Garbo e Marlene Dietrich. No mesmo ano, apresentou em Paris a exposição Le Regard d’Estelle, seguida de uma residência artística no Espace Cardin. A propósito dos 20 anos do Prémio Nobel de José Saramago, foi convidada por Anabela Mota Ribeiro a ilustrar o livro Por Saramago com as suas fotografias.
Entre 2019 e 2020 colaborou com a GQ Portugal, onde realizou retratos de personalidades da cultura. Deu aulas de fotografia na Academia Gerador durante quatro anos.
Em 2025 realizou uma residência artística nos Estúdios Vítor Cordon, da qual nasceu a exposição RÉMANENCE — do efémero à memória, um trabalho sobre o movimento na dança, patente de 27 de fevereiro a 8 de maio.
O ano de 2025 assinala ainda dez anos dedicados à fotografia de teatro e dança. As comemorações iniciaram-se com a exposição L’Art en Scène, no MIMO — Museu da Imagem em Movimento de Leiria, patente de setembro de 2025 a janeiro de 2026, e culminam com uma exposição no local onde tudo começou, o Teatro São Luiz, a partir de março de 2026.
O seu trabalho procura sempre acrescentar poesia à imagem. Gosta de fotografar aquilo que não existe.
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