O Festival Música Viva 2026 afirma-se como um palco de resistência estética e ética num mundo atravessado por crises profundas: a consolidação de poderes hegemónicos, o agravamento das desigualdades, a normalização da tirania, o massacre e a erosão progressiva da humanidade e da natureza. Perante este estado do mundo, o festival assume a insurgência como necessidade vital num gesto consciente contra a inércia, o silenciamento e a indiferença.
Nesta 32ª edição, Insurgência é simultaneamente poética e política. A criação musical surge como ato de confronto, de desvio e de recusa, afirmando a arte como arma sensível contra a violência estrutural, a desumanização e a lógica do medo. As obras apresentadas não procuram o conforto, mas antes a fricção: questionam, expõem feridas, abrem fissuras e convocam novas formas de escuta, pensamento e presença.
O Festival Música Viva convida este ano a palavra poética como ato político e sonoro: em cada concerto, poetas, escritores, atores, leem poemas sobre insurgência, resistência e liberdade; vozes que entram em diálogo com as obras musicais, ampliando o campo de sentido de cada encontro. A poesia não ilustra a música nem a música ilustra a poesia, mas ambas habitam o mesmo espaço de risco e, constroem juntas uma forma de presença que recusa a passividade. Poesia e textos de Shahd Wadi, Gisela Casimiro, Jorge de Sena, Luiz de Camões, Audre Lorde, Mrika Sefa, Sidónio Muralha, Gonçalo M. Tavares e Mário Dionisio, por Shahd Wadi, Gisela Casimiro, Rosinda Costa, Mrika Sefa, Marta Domingues, João Morales, Joana Santos e Miguel Azguime.
No Festival Música Viva 2026, insurgir é ainda resistir à uniformização do gosto, é criar contra a violência da repetição, é afirmar a arte como lugar de liberdade, imaginação radical e responsabilidade. Num mundo em colapso, a música torna-se um ato de insubmissão e de esperança ativa.
Programa
28 abril | INSURGÊNCIA, Sond’Ar-te Electric Ensemble – comprar bilhete
Direcção: Guillaume Bourgogne
terça, 20h
Sala Luis Miguel Cintra
Leitura de Chuva de Jasmim, de e por Shahd Wadi, poeta palestiniana, entre outras possibilidades.
José Carlos Sousa: Mafish Mushkila (2026) – EA (encomenda SAEE)
Pedro Berardinelli: nova obra (2026) / EA (conjunta Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu e Miso Music Portugal)
Carlos Lopes: in Pulses (2026) / EA (encomenda Miso Music Portugal)
Olivier Messiaen: Quarteto para o Fim do Tempo (1941)
Sílvia Cancela – flauta, Nuno Pinto – clarinete, Vítor Vieira – violino, Filipe Quaresma – violoncelo, João Casimiro Almeida – piano, João Dias – percussão
29 abril | PEIXINHO POLÍTICO, Ensemble MPMP – comprar bilhete
quarta, 18h
Sala Bernardo Sassetti
Leitura de poema de e por Gisela Casimiro.
Jorge Peixinho: CDE (1970)
Jorge Peixinho: Elegia a Amílcar Cabral (1973)
Jorge Peixinho: A Aurora do Socialismo (Madrigale Capriccioso) (1975–76)
Rui Borges Maia – flauta, Miguel Costa – clarinete, Armando Martins – trompa, Philippe Marques – piano, Francisco Cipriano – percussão, Daniel Bolito – violino, Ângela Carneiro – violoncelo
29 abril | O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO, José Pedro Ribeiro (recital de piano) – comprar bilhete
quarta, 20h
Sala Luis Miguel Cintra
Leitura de Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya, de Jorge de Sena, por Rosinda Costa.
Fernando Lopes-Graça: Prelúdio, Canção e Dança (1928)
Frederik Rzewski: The People United Will Never Be Defeated! (1975)
30 abril | EXIGENTES OS MORTOS, INSURGENTES OS VIVOS, Duo Nada Contra – comprar bilhete
Mrika Sefa (piano) _ Francisco Cipriano (percussão)
quinta, 18h
Sala Bernardo Sassetti
Leitura de poema de e por Mrika Sefa e de poema de Audre Lorde por Marta Domingues.
João Quinteiro: Pairs – à propos de l’interiorité (2024)
Valerio Sannicandro: Esercizi di morte (2024)
Marta Domingues: Sowing snow in cone pots (2024)
Anda Kryeziu: nova obra (2026) / EA (encomenda Miso Music Portugal )
30 abril | DESFASAMENTOS: STEVE REICH E SOLANGE AZEVEDO, Grupo de Percussão da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) e convidados – comprar bilhete
Direção: Pedro Carneiro
quinta, 20h
Sala Luis Miguel Cintra
Leitura de Com Sol e Sal, eu Escrevo de Sidónio Muralha por João Morales
Solange Azevedo: No Mesmo Espaço (2026) / EA (encomenda Miso Music Portugal )
Steve Reich: Drumming (1971)
Rui Borges Maia – flauta; Maria Grilo – soprano; Markéta Chumová – mezzo-soprano; Pedro Carneiro – direção e percussão; João Carlos Pacheco – assistente de direção e percussão; Agostinho Sequeira, Marco Aleixo, João Braga Simões, Rafael Picamilho, Bárbara Ribeiro, Paulo Amendoeira, Madalena Rato – percussão
2 maio | CANTO DA LIBERDADE, Miso String Quartet – comprar bilhete
sábado, 18h
Sala Bernardo Sassetti
Leitura de texto de Gonçalo M. Tavares por Joana Santos.
Diogo Alvim: Tłumaczenie (2015)
Doïna Rotaru: Vivarta (2009)
Steve Reich: Different Trains (1988)
2 maio | TRANSFORMAÇÃO – Sinfonietta de Braga convida Rita Castro Blanco – comprar bilhete
Direção: Rita Castro Blanco
sábado, 20h
Sala Luis Miguel Cintra
Leitura de Os Lusíadas, Canto IV, estâncias 94–104 de Luiz Vaz de Camões por Miguel Azguime.
Alban Berg – 3 peças para orquestra de cordas da Suite Lírica (1925–26 / arr. Theo Verbey, 1993)
György Ligeti: Ramifications (1969)
Toru Takemitsu: Requiem para orquestra de cordas (1957)
Bruno Gabirro: Rebel (Chaos) (2008)
Carlos Brito Dias: “was birgst du so bang dein Gesicht?” (2022)
3 maio | O LUGAR DA MEMÓRIA, Orquestra Metropolitana de Lisboa – comprar bilhete
Direção: Pedro Neves
domingo, 17h30
Sala Luis Miguel Cintra
Miguel Azguime: Against Silence / triplo concerto para clarinete, violoncelo, piano e orquestra
Ludwig van Beethoven: Triplo Concerto para violino, violoncelo, piano e orquestra
Nuno Pinto – clarinete, Vítor Vieira – violino, Filipe Quaresma – violoncelo, Elsa Silva – piano